Faxineiro
Racismo, escola e afetos em tempos de estatísticas.
Quando o sinal do intervalo tocou, tentei dirigir-me rápida e disfarçadamente à sala dos professores, a fim de pegar um copinho de café. No entanto, a um corredor de distância de meu objetivo, Vini encontrou-me e me pediu para conversarmos sobre seu Trabalho de Conclusão de Curso.
Sou seu orientador nesta atividade, e estávamos atrasados com os prazos; suspirando, conduzi-o a um banco no pátio da escola, onde nos sentamos para discutir os acertos que ele deveria fazer naquela semana. Faltavam poucos meses para sua formatura, mas, antes, ele precisava decidir se criaria ou não um gráfico à parte para analisar especificamente a questão de Kendrick Lamar.
Como tema para seu TCC, Vini optou por fazer um estudo sobre a relação entre raça e a indústria musical. Comparando, sob inúmeras perspectivas, os vencedores do Grammy na categoria “álbum do ano” e confrontando-a com outras categorias, ele pretende embasar a hipótese de que, estatisticamente falando, artistas pretos têm menos chances de conquistar as premiações socialmente mais aclamadas. Nesse sentido, tentávamos discutir quais músicos deveriam ou não ganhar destaque na pesquisa; entretanto o pátio, no horário do intervalo, era barulhento e movimentado.
— Professor, a Beyoncé é o caso mais explícito para o trabalho, mas o Lamar… ops, foi mal, Marcelinho! E aí, como vai o… ?
Vini interrompeu brevemente o raciocínio para cumprimentar um faxineiro que se aproximara para limpar o banco em que estávamos sentados. Não sei preencher a lacuna sobre a qual o estudante perguntara a Marcelinho (tampouco sei reproduzir o resto do curto e amigável diálogo que se deu em seguida), pois tratava-se de uma conversa sobre times de basquete.
Desculpamo-nos e trocamos de banco para voltarmos ao TCC. Não pude notar, porém, que o menino assumiu abruptamente feições tristes. Acredito que a mudança de expressão acontecera devido à troca de assuntos: por alguns segundos, ele se divertia falando sobre esporte com Marcelinho; logo em seguida, voltava a falar sobre a relação entre a cultura e o racismo.
Terminei o intervalo sem saber no que pensar. Quando Vini me propôs este tema para seu projeto, prontamente aceitei orientá-lo. Normalmente, era produtivo analisarmos comparativamente os dados e organizá-los de modo que fizessem sentido. Em contrapartida, havia esses momentos em que a linha de raciocínio construída pela pesquisa parecia apenas apontar para a desesperança.
Embora seja importante, é claro, incentivar o senso crítico dentro da sala de aula, pergunto-me como é possível equilibrar a realidade e o sonho, a crítica e a alegria. É difícil andar nessa corda bamba que separa o abismo da alienação política do abismo da atrocidade da consciência. Ao mesmo tempo em que é importante conscientizarmo-nos enquanto minorias políticas, é complexa a tarefa de reiterar diversas vezes a um aluno preto que, devido à sua cor, a vida não será fácil.
As minhas três últimas aulas do período da manhã foram enevoadas por estes dilemas. Quando tocou o sinal para o almoço, peguei minha marmita e fui ao refeitório de funcionários da escola. Sentei-me sozinho a uma mesa e fiz minha refeição em silêncio.
Terminado o prato, dirigi-me à saída do refeitório, quando notei que, em outra mesa, também sozinho, estava o faxineiro cujo nome eu aprendera naquela mesma manhã. Cumprimentei-o, “Marcelo, né? Prazer!”, e me apresentei. Disse, envergonhado, que, apesar de trabalhar na escola havia alguns anos, eu ainda não sabia seu nome, e que fora Vini quem me apresentara a ele naquela manhã.
Quando mencionei o nome do aluno, o rosto de Marcelo subitamente iluminou-se. Sorriu, e disse, em voz alta, que aquele era um menino especial, extremamente carinhoso. Sorri de volta a Marcelo e concordei; Vini não era apenas inteligente, mas também era afetuoso. Comentei, então, que era uma pena que aqueles eram seus últimos meses na escola.
Marcelo assustou-se, e perguntou se ele teria que sair no ano seguinte, e lhe respondi que o aluno estava para se formar. “Entendi… Ele já me disse que é bolsista, que a mãe não tinha como pagar uma mensalidade dessas. Ele vai fazer o que depois da escola?”.
Desviei os olhos para responder que Vini quer ser advogado. Em respeito à possível comoção que compartilhávamos naquele momento, não deixei que visse meus olhos marejados, assim como não quis ver os seus. Despedi-me, então, para ir ministrar minhas aulas do período da tarde, e falei para Marcelo que ainda restavam alguns meses para nos despedirmos devidamente do aluno.
Eu, sinceramente, não sei como encontrar os equilíbrios necessários dentro da sala de aula; acredito que aprenderei mais com os anos. Em relação a esse episódio específico, decidi registrá-lo para me lembrar sempre de que as relações pessoais que Vini construiu na escola ensinaram-me muito mais sobre o racismo do que seu projeto de TCC.
(Nota: em 2025, poucos meses depois da formatura escolar, Beyoncé finalmente conquista o Grammy de “Álbum do Ano”, tamanho foi o impacto cultural do TCC de Vini)


Socorro, a nota ao final me pegou muito desprevenida!! hahahahaha
Esse texto é tão lindo! Tão cheio de uma sensibilidade tão sua, mas tão gostosa de poder ver traduzida assim!