Partida
O que se pode ver em meus olhos quando olho para trás?
Entristece-me olhar nos olhos de minha prima e enxergar somente o reflexo de corpos atraentes jogando uma partida de basquete enquanto passamos pela quadra do Corpo de Bombeiros
Quando buscava o reflexo da quadra nos seus olhos, era-me possível contemplar a tarde em que choramos num café enquanto você decidia que iria de fato se divorciar
Dentro dos seus olhos, o suor que escorria pelos corpos dos bombeiros confundia-se com as lágrimas que eu derrubava em seu peito quando compreendi que era o meu então relacionamento que estavas prestes a terminar
Caminhávamos sempre juntos até a estação de metrô, no que passávamos pela respeitável instituição, e, juvenis, admirávamos os respeitáveis jogadores que se divertiam despidos do uniforme
Eu olhava nos seus olhos e via os corpos dos bombeiros misturados aos corpos juntos dos quais dançávamos madrugada adentro em festas para as quais eu a convencia a ir
As lágrimas que você derrubou pelo meu término mesclavam-se às lágrimas que eu derrubei pelo seu divórcio, que se mesclavam às lágrimas que nós dois choramos quando seu projeto de mestrado enfim foi aceito
No intervalo entre cada evento, admirávamos abobados os corpos dos bombeiros
***
Não caminhamos mais juntos e, por isso, minha prima pergunta-me a razão de meu silêncio quando passamos em frente ao Corpo de Bombeiros
É inútil buscar o reflexo da vida que construí com você dentro dos olhos de minha prima, para quem uma partida de basquete não passa de uma partida de basquete
E angustia-me percepção de que isto não passa de uma mera representação metonímica de todo o idioma que descobrimos em nossos tantos anos de amizade
Angustia-me também pensar que a vida pode ser encarada como um eterno ciclo de criação e destruição de sistemas inteiros de significação e de identidade que se criam em anos e se destroem em dias
Por isso, eu preciso preciso preciso me apegar ao fato de que, um dia, para nós dois, uma partida de basquete também já foi nada além de uma partida de basquete
Preciso preciso preciso me apegar ao fato de que a vida surpreende e nunca é possível saber o momento em que uma banalidade do cotidiano adquire uma nova semântica que só pode ser acessada por duas pessoas que gostam muito uma da outra
“Acho que uma conhecida mora aqui perto”, respondo
(Extremamente inseguro, arrisco-me nessa desajeitada prosa poética para tentar entender como me sinto a respeito de nós dois)


Entre chegadas e partidas, a vida se cria. E, por mais doloroso que as partidas sejam, ainda mais aquelas inesperadas, é sempre bom lembrar das " novas semânticas" que a vida só pode adquirir com as chegadas.
Obrigada pela oportunidade de ler mais um texto maravilhoso seu. Suas palavras - e tudo que elas carregam - são um abraço e uma vontade de abraçar.
Você não está sozinho <3
Me emocionei 🥺